O Silêncio do Analista do Comportamento

Estar na posição de terapeuta requer muito mais do que simplesmente sentar, ouvir o que o cliente tem a dizer e dar dicas e conselhos de como ele deve agir. Ser terapeuta envolve uma série de outras habilidades e técnicas, como uma audiência não punitiva e um olhar clínico bem treinado para que a sessão seja bem aproveitada.

Muito é falado na literatura psicológica a respeito dos possíveis motivos e significados do silêncio do cliente, tal como, por exemplo, o silêncio como uma forma de evitar abordar algum tema, ou apenas para testar o terapeuta e saber se ele realmente saberá respeitar esse momento e não cobrar por falas. Mas o que temos a dizer a respeito do silêncio do analista? Em qual momento ele se torna terapêutico e em qual ele passa a ser prejudicial para o processo

Pensando nisso, destaquei três momentos da terapia que considero importantes, por surgirem de forma recorrente durante a terapia, por serem questões que normalmente não são previamente orientadas ou que talvez não recebam a devida atenção, tanto para novos terapeutas como aos mais experientes.

Primeiro: O Terapeuta precisa ter sempre uma resposta na ponta da língua?

“- Sabe, meu filho anda muito agitado na escola e em casa, não consegue fazer mais nada direito. Ele tem TDAH não é?”

“- Ele tem todos esses sintomas, você sabe o que ele tem não é? Você é minha última esperança!”

“- O que eu faço?”

Alguma dessas falas lhe pareceu familiar? Por diversas vezes somos cobrados a termos “respostas prontas” ou “soluções mágicas” pelos familiares de nossos clientes, ou até mesmo pelo próprio cliente. Nesse momento o terapeuta pode se sentir ansioso, se sentir “pressionado” a responder algo ou dar uma solução. É importante considerar sempre que não temos todas as respostas! – Sim, nós não temos! – por esse motivo chamamos a terapia de processo terapêutico, o que vale tanto para o cliente quanto para o terapeuta. Muitas vezes podemos responder apenas:

“- Olha, eu não sei! Mas podemos encontrar essa resposta juntos! O que acha?”

Segundo: Verbalizar nem sempre é acolher!

Temos muito conhecimento. Lemos livros e artigos, participamos de congressos, palestras e cursos, fazemos mestrado, doutorado… Mas do que vale tantos títulos e experiências se não soubermos como sermos realmente humanos? Ou seja, capazes de identificar e criar empatia com a dor do próximo?

Acolher a dor do próximo não necessariamente significa verbalizar ideias ou tentar bater de frente com o argumento dado – por mais absurdo e surreal que ele seja! – Está relacionado com compreensão e o máximo de empatia, e para isso basta estarmos atentos, com olhos e ouvidos, concordar com o mais absurdo, acolher a informação, permitir muitas vezes que suas emoções surjam e tomem espaço na sessão, para que o paciente perceba todo esse movimento sem que nada precise realmente ser dito:

“Olha só, eu te entendo! Eu também sou humano, isso também me dói. Mas agora você não está mais sozinho!”

Terceiro: Não “vomitar” análises e interpretações

Já parou para pensar que o seu cliente muitas vezes não sabe nem da metade dos dados que você tem a partir das suas observações? E que ele não faz a menor ideia de todo o caminho que você trilhou para chegar até sua avaliação?

Certas análises não devem e muitas vezes nem mesmo podem ser abertas de forma direta e precoce para quem está sendo analisado. Não seja o cara chato que fala e fala e fala, mas que não consegue perceber as emoções envolvidas em cada relato, não consegue estar sensível às contingências, as interações importantes que estão ali presentes!

Ao analisar uma partitura musical, encontramos em forma de números, símbolos ou figuras musicais todas as notas que devem ser tocadas, e quando elas devem. Mas, tão importante quanto o som emitido, também é a pausa – o tempo entre um som e outro. Ela pode ser usada para que o som anterior ecoe por um tempo, pode preparar uma finalização triunfal, pode ser usada para o silêncio dar conta de concluir aquele movimento, ou ainda para eliciar diversos comportamentos respondentes ou produzir estados emocionais em quem está atento à música.

A Psicoterapia é o nosso concerto musical! Usamos diversos instrumentos/técnicas, temos movimentos altos e baixos/diferentes intervenções, seguimos uma partitura/abordagem que dita nossos movimentos, temos um começo, meio e fim e, por último, mas não menos importante, temos o nosso silêncio. E ele pode ser utilizado para que 1) possamos analisar corretamente e com calma os caminhos a seguir; 2) simplesmente consentir e até se emocionar com um relato (acolher e empatizar); e 3) não achar que nosso cliente é um psicólogo ou alguém que já sabe todos os dados que temos!

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