Fobia e Ansiedade Social

Antes de discorrer sobre o que é chamado de fobia social, discute-se a respeito do que é a ansiedade social e o que é a ansiedade considerada como “patológica”, visto que tais termos são importantes na conceituação desse transtorno de ansiedade. Cabe ressaltar que a discussão realizada será abordada do ponto de vista de características do diagnóstico, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-IV-TR) (APA, 2002) e Manual de Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (OMS, 1993), sabendo que na Análise do Comportamento tais pontos e definições serão tratados de modo funcional a partir de processos comportamentais.

A ansiedade social pode surgir cedo na vida das pessoas. Aproximadamente no oitavo e/ou nono mês de vida observa-se o medo que algumas crianças têm de estranhos, todavia este se costuma desaparecer ao longo de seu desenvolvimento (Beidel & Turner, 1998, Kagan & Snidman, 1999, Neal, Edelmann, & Glachan, 2002).

Do ponto de vista médico, ansiedade social é uma reação emocional normal que a maioria das pessoas apresenta em algum momento de sua vida. Ela é uma resposta sentida quando a pessoa está em situações sociais (em companhia de outras), podendo aumentar em função de aspectos como o nível de formalidade da situação, o grau em que o indivíduo se sente exposto ao escrutínio, ridículo e julgamento, sendo acompanhada por um desejo de evitar ou fugir imediatamente da situação social (Beidel & Turner, 1998; Picon, 2003).

Essa ansiedade estaria presente durante todo o desenvolvimento humano e geralmente precederia qualquer compromisso social novo ou desconhecido. Seria vantajoso responder com ansiedade social a certas situações. Para diminuir ou controlar tais sintomas da ansiedade social, tal literatura comenta que se deve preparar para tal situação, tanto na aparência quanto no comportamento, engajando-se em tais situações (e.g., aulas, festas, encontros amorosos, entre outros) (Nardi, 2000; D’El Rey, 2001).

Entretanto, algumas pessoas sentiriam essa ansiedade social de forma tão intensa e aguda, que as levariam ao extremo sofrimento e a perdas frequentes de oportunidades sociais, acadêmicas, profissionais (D’El Rey, Pacini & Chavira, 2006). Os autores afirmam que tais pessoas podem abandonar empregos, escola, abdicar de uma vida amorosa/social, podendo viver completamente isoladas das outras pessoas.

Segundo Nardi (2000), pode-se falar de ansiedade social normal, contrastando com a ansiedade social “anormal ou patológica”, no caso, a fobia social ou o transtorno de ansiedade social (TAS). Segundo o autor, essa é uma resposta “inadequada” a determinados estímulos, em virtude de sua intensidade, duração e sintomas.

Diferentemente da ansiedade social normal, a ansiedade “patológica” paralisaria o indivíduo, trazendo prejuízo ao seu bem-estar, qualidade de vida e ao seu desempenho e não permitindo que ele se prepare e enfrente as situações ameaçadoras. Haveria, portanto, uma paralisia do indivíduo ovocada pela desproporcionalidade entre o evento desencadeante e a reação do indivíduo (Furmark, 2002). Dessa forma, quando a ansiedade é intensa, persistente e desproporcional às possíveis causas aparentes, interferindo de maneira significativa no funcionamento da pessoa, deveria ser considerada “patológica” e alvo de intervenção terapêutica pelo modelo médico (Nardi, 2000).

O modelo médico de psicopatologia parte do princípio de que uma doença, ou no caso, uma ansiedade “patológica”, é a manifestação de uma patologia subjacente e, portanto, ao se identificar tal doença, deve-se buscar uma intervenção específica (Sturmey, 1996). Assim, haverá sempre uma dicotomia entre o normal e o patológico, considerando as respostas “disfuncionais” da pessoa como sintomáticas de uma doença (Anderson, 2007).

Pessoas com fobia social podem sentir uma ansiedade aguda ao lidar com atividades como assinar um cheque na frente de outros, usar o telefone ou comer num lugar público. Tais situações seriam consideradas normais pela maioria das pessoas e muitas delas podem sentir ansiedade antecipatório/medo, todavia, o medo crônico e persistente pelos indivíduos com fobia social é percebido como irracional e o paralisam, impedindo que continuem na atividade (Nardi, 2000).

Além disso, tais pessoas apresentariam uma hipersensibilidade a críticas, mantendo uma avaliação negativa a respeito de si mesma, sentimentos de inferioridade e apresentam grande dificuldade em serem assertivas. Relata-se que o aspecto cognitivo é um dos fatores muito significativos nesse transtorno (Clark, 2000; Falcone, 2001; Savoia & Vianna, 2011).

Hartman (1983) e Beck (1995), autores da abordagem cognitivista, descrevem que indivíduos socialmente ansiosos se engajam em um processamento demasiadamente autofocado em situações sociais, interferindo no próprio funcionamento social. Com isso, um “senso negativo do eu” se combinaria com uma auto-observação (de suas reações emocionais) frequente em tais indivíduos e, consequentemente, produziria ansiedade, interferindo no desenvolvimento de autoconceitos e inibindo a atenção das informações do ambiente.

Segundo Falcone (2001), outra autora cognitivista, o processamento “disfuncional” característico da fobia social ocorre a partir de uma fase de processamento antecipatória à situação (ruminação apreensiva), seguindo-se uma fase de processamento na situação e depois uma fase “pós-morte”, em que a pessoa vai além da situação, percebendo o que aconteceu, o que deveria ter acontecido e que consequências poderiam ocorrer. A autora salienta que a segunda fase seria a mais significativa para a manutenção do problema, pois as “autocrenças”, as suposições condicionais e as regras rígidas sobre o desempenho social tornariam o indivíduo muito vulnerável para lidar com as situações sociais.

Segundo Nardi (2000), seguindo o modelo médico, uma ampla gama de situações sociais pode produzir ansiedade em pessoas com esse transtorno. O medo mais comumente citado é o de falar para um público, além de lidar com pessoas de autoridade, falar em frente a um grupo pequeno de pessoas conhecidas, frequentar reuniões sociais e conhecer novas pessoas.

De acordo com Craske e Pontillo (2001) muitas são as características das pessoas com fobia social. Os autores discutem que pessoas com esse transtorno têm uma atenção seletiva a estímulos e objetos que produzem ansiedade e lembranças negativas relacionadas com a ameaça ao contato com a situação temida. Relatam serem vítimas de insucessos e avaliam negativamente seu desempenho com grande frequência.

Hudson e Rapee (2000) enfatizam também o quanto pessoas com fobia social possuem um déficit em habilidades sociais. Tal ponto também foi investigado por Angélico, Crippa e Loureiro (2006) a partir de uma revisão de literatura entre Fobia Social e Habilidades Sociais, na qual afirmam que o perfil de indivíduos com fobia social generalizada ou alto nível de ansiedade social caracteriza-se, em sua grande maioria, por prejuízos em suas habilidades sociais. Tal afirmação fora feita por meio da revisão de revisões sistemáticas da literatura que sistematizaram registros de medidas objetivas (instrumentos, escalas, filmagem de interações, frequência cardíaca) em pessoas com fobia social versus grupos-controle (pessoas que não eram diagnosticadas com fobia social).

Baseando-se em tais características e padrões descritos na literatura, diversos autores (cf. DE´l Rey & Pacini, 2006; Sampaio & Roncati, 2011) descrevem, a partir de aplicações e retomadas históricas, variadas técnicas utilizadas em casos de fobia social e que também são utilizadas para outros transtornos de ansiedade, tais como: exposição, dessensibilização sistemática, reestruturação cognitiva, treino em habilidades sociais, inundação, modelação, resolução de problemas, técnicas de relaxamento, entre outras que tiveram suas origens no modelo cognitivo e/ou no modelo comportamental de terapia.

Referências

American Psychiatric Association (2002). Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorder (DSM-IV-R).Washington: American Psychiatry Association.

Anderson, C. M. (2007). Functional assessment with clinical populations: current status and future directions. Em P. S. Sturmey (Org.), Functional Analysis in Clinical Treatment (pp. 455-473). San Diego: Academic Press.

Angélico, A. P., Crippa, J. A. S., & Loureiro, S. R. (2006). Fobia social e habilidades sociais: uma revisão da literatura. Interação em Psicologia, 10(1), 113-125.

Beck, J. S. (1995). Cognitive therapy: Basics and beyond. New York: Guilford

Beidel, D., & Turner, S. (1998). Shy Children, Phobic Adults. Nature and Treatment of Social Phobia. Washington: American Psychological Association.

Clark, D. M. (2000). Cognitive behavioral therapy for anxiety disorders. Em M. G. Gelder, J. Lopez-Ibor, & N. N. Andreason (Orgs.), New Oxford textbook of psychiatry(pp. 34-46). New York: Oxford University Press.

Craske, M. G., & Pontillo, D. C. (2001). Cognitive biases in anxiety disorders and their effect on cognitive-behavioral treatment. Bulletin of the Menninger Clinic, 65, 58-77.

D’El Rey, G. J. F., Pacini, C. A., & Chavira, D. J. F. (2006). Fobia social em uma amostra de adolescentes. Estudos de Psicologia11(1), 111-114.

Falcone, E. O. (2001). O processamento cognitivo da ansiedade na fobia social. Revista de Psiquiatria Clínica, 28(6), 309-312.

Furmark T. (2002). Social phobia: overview of community surveys. Acta Psychiatrica Scandinavica105, 84–93.

Hartman, L. M. (1983). A metacognitive model of social anxiety: Implications for treatment. Clinical Psychology Review, 3, 435-456.

Hudson J. L, & Rapee R M. (2000). The origins of social phobia. Behavior Modification, 24, 102-129.

Kagan, J., Snidman, N., & Arcus, D. (1998). Childhood derivatives of high and low reactivity in infancy. Child Development, 69, 1483-1493.

Nardi, A. E. (2000). Complicações e limitações. Em A. E. Nardi (Org.), Transtorno de ansiedade social: fobia social – a timidez patológica (pp. 51-57). Rio de Janeiro: Medsi.

Neal, J. A., Edelmann, R. J., & Glachan, M. (2002). Behavioural inhibition and symptoms of anxiety and depression: is there a specific relationship with social phobia?. British Journal of Clinical Psychology, 41, 361-374.

Organização Mundial da Saúde (1993). Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas.

Picon, P. (2003). Terapia cognitivo comportamental do transtorno de ansiedade social. Em R. M. Caminha, R. Wainer & M. Oliveira (Orgs.), Psicoterapias cognitivo-comportamentais: teoria e prática(pp. 129-144). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Sampaio, T. A., & Roncati, A. C. K. P. (2011). Algumas técnicas tradicionalmente utilizadas na clínica comportamental. Em N. B. Borges & F. A. Cassas (Orgs.), Clínica analítico-comportamental: Aspectos teóricos e práticos (pp. 1-12). Porto Alegre: Artmed.

Savoia, M. G., & Vianna, A. M. (2011). Especificidades do atendimento a pacientes com transtornos de ansiedade. Em M. G. Savoia (Org.), A interface entre Psicologia e Psiquiatria – 2ª edição(pp. 87-110). São Paulo: Roca.

Sturmey, P. S. (1996). Functional Analysis in Clinical Psychology. England: John Willey & Sons.

[Trecho retirado da monografia da Especialização em Clínica Analítico-Comportamental: Colombini (2012). Análise comportamental de revisões sistemáticas de literatura em tratamentos terapêuticos para a fobia social. (Tese de especialização). Núcleo Paradigma Análise do Comportamento, São Paulo].

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